
JAGUAR, ZÉ GERALDO E MILLÔR FERNANDES
Apressado para nada - título deste blog - é o mesmo que o Millôr Fernandes deu para o último livro do Zé, embora quando redigiu seu prefácio ainda não soubesse. Originalmente ele seria Um Zé de Copacabana, mas o próprio Millôr criticou, e o Ziraldo opinou que deveria ser ”O Charlie Chan” de Copacabana.
Mesmo sendo uma biografia, o livro Apressado para nada do Zé Geraldo não apresentou dados biográficos completos ao alcance da pesquisa, falha que a USINA DE LETRAS na internet, A GUERRA DOS GIBIS de Gonçalo Junior, e artigos do jornalista Mário de Moraes, repararam com minúcias. [/caption] O Zé Geraldo foi corredor de automóveis, boxer – conheceu o jiu-jitsu “enfrentando” Hélio Gracie – radialista, jornalista, desenhista, pintor, professor, escritor, pensador e pesquisador. Natural de Petrópolis, Rio de Janeiro, nasceu em 1924. Aos 15 anos, ele e o Millôr Fernandes começaram a trabalhar na Empresa Gráfica o Cruzeiro de Assis Chateaubriand. Lá, com o poeta Lúcio Cardoso o Zé fundou a revista O Guri, e, na EBAL de Adolfo Aizen, popularizou clássicos de autores brasileiros. Seus livros contaram com os prefácios de Barbosa Lima Sobrinho, Nélida Pinon, Rachel Jardim, Pina Bastos, Augusto da Silva Telles, e Henrique Miranda. Sem escrever desde 1981, quando a Editora VOZES lançou seu Bye, Bye, Amazônia, que escrito no início dos anos 70 nada teve há ver com o filme Bye, Bye, Brasil de 1979, sequer com seu primo o cineasta Luiz Carlos Barreto. Seu último livro foi Apresado para nada, com prefácio de Millôr Fernandes e “orelhas” do Ziraldo – que reclama que quando menino o Zé sequer olhou seu desenho. Jura o autor, que na época ele era ruim, e que jamais poderia supor que, no gênero, Ziraldo viria a ser o melhor do mundo.
Desenhista, jornalista, produtor cultural, ficcionista e empresário, embora o julguem um ativista partidário, o Zé sempre foi um irrecuperável anarquista.
Hercules Xavier – pesquisador, tecnico em informática
TICO TICO
Em 1933, ainda menino, publicando seus primeiros quadrinhos na revistinha Tico-Tico, o Zé estreou muito mal. Numa época onde não havia TV, foram os importados filmes em série americanos a inspiração para ele “plantar” um “cowboy” no meio de personagens “caboclos” como Zé Macaco e Faustina, Reco-Reco Bolão e Azeitona, a exceção de Chiquinho e Jagunço, quadrinhos do americano Octclat, único importado num Tico-Tico aonde atuavam grandes desenhistas como Luiz Sá e Uyantok. Depois de prejudicar a preciosa revistinha, Zé Geraldo se redimiu. Na Empresa Gráfica O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand, com o poeta Lúcio Cardoso lançou a revistinha Guri, com os primeiros quadrinhos nacionais coloridos.
GURI
Foi quando a Empresa Gráfica O Cruzeiro também aderiu aos quadrinhos, que aos 15 anos o Zé encontrou o Millôr Fernandes e o Péricles, e criou o personagem Zânzio para a revistinha que ia sair. Nome esquisito, tirado da placa de anúncio de cirurgião dentista, que transformado em herói do Brasil colônia nos quadrinhos, acabou num seriado do programa Silvia Autuory da Rádio Tupi. Na época, o excelente Arcindo Madeira veio de Portugal para desenhar Os Lusíadas de Camões para o GURI, e, além do Zânzio, o garoto Zé Geraldo quadrinizou Y-Juca-Pirama de Gonçalves Dias. O Péricles estreou com os quadrinhos OLIVEIRA TRAPALHÃO, e, mais tarde, com o seu AMIGO DA ONÇA no O CRUZEIRO, iria se tornar o maior responsável por sua astronômica tiragem. Pena que depois dos anos 50 a revista GURI tenha se desfigurado. O que aparece ai em baixo, é uma péssima reprodução de capa que sobrou da década de 40, que ampliada não deu uma boa definição.

VIDA INFANTIL E VIDA JUVENIL
Casado aos 18 anos, em plena 2ª Guerra Mundial, o Zé Geraldo foi para a cidade de São Paulo bancar o empresário, mas deu com os “burros n’água”, e voltou para o Rio. Foi correndo procurar o editor Antônio Haddad, da então famosa revista Vida Doméstica, que havia lançado duas revistas: VIDA INFANTIL com o excelente desenhista Joselito, e VIDA JUVENIL que ficou com o Zé. Foram obras primorosas, que contaram com a colaboração do professor Paula Barros, Carlos Cavaco, Lígia Fagundes, Lazinha Luiz Carlos, e Malba Than.
MÁRIO e ARMANDO PACHECO
Foi no departamento de arte da Wintrop do Brasil que o Zé Geraldo conheceu o grande desenhista Mário Pacheco. Seu trabalho era com ele modificar progressivamente o “layout” do rótulo do sabonete LEVER, que por uma questão de “royalties”, até então não podia usar o nome LUX no Brasil. Era um trabalho árduo, mas eles ainda arranjavam tempo para desenhar os quadrinhos diários do pingüim do Ponto Frio para o jornal O Globo. Foi com o Mário e seu irmão, pintor Armando Pacheco, que o Zé embrenhava-se na mata da tijuca pra buscar motivação e pintar quadro a óleo. Quando em Paris, o Zé pintou uma série de retratos da modelo Norma Thamar, bancando o marchante, com eles o cineasta Abel Gance promoveu uma concorrida mostra. Mas o contato do Zé com a paleta durou pouco.
Empolgado com o pictográfic do Abel Gance, invenção que iria revolucionar montagem de cenário de filmes - numa época em que sequer se sonhava com computação gráfica – o Zé “empresário” se associou ao ator Lex Barker (o Tarzan da vez) que estava em Paris, para que juntos levassem a novidade para Hollywood. Mas o “homem macaco” teve que terminar filmagens na selva, e o negócio pifou. O Zé Geraldo voltou só para Nova Iorque.
O cineasta ABEL GANSE

Por incrível coincidência, foi também na Rua 45, no PICADILLY HOTEL, que durante uma convenção o Zé Geraldo conheceu seu xará Al Capp (Alfred Gerald), que no sobrenome ostentava também Chaplin. No Brasil, país que o desenhista visitou, seu famoso personagem LIU ABNER era conhecido como FERDINANDO. Nos Estados Unidos seus quadrinhos eram tão importantes que regiam até calendário. Gerald perdera uma perna num acidente, era avesso à guerra, e me confidenciou que os SHMOO dos seus quadrinhos foram considerados personagens símbolos do socialismo pelo CMAA, órgão da censura do macartísmo. Foi Capp que, com lápis na mão, rabiscando, conscientizou o jovem Zé sobre o que realmente representava a política imperialista do seu país…
CHARLIE CHAN
Charlie Chan e seu filho nº1
Em 1950, em Nova Iorque, o Zé Geraldo conheceu Mister Byk da distribuidora King Features, dona dos “Flash Gordon” e dos “Mandrakes”. Mas, enquanto o exímio desenhista Fernando Dias da Silva chegava aos ESTATES para substituir Alex Raymond, “pai” do Flash Gordon, seu colega Zé de lá voltava para o Rio de Janeiro “trazendo na bagagem” o detetive CHARLIE CHAN, então famoso nos quadrinhos e no cinema. Ele continuou escrevendo e desenhando quadrinhos do personagem para a revista editada pela Empresa Gráfica O Cruzeiro, mas “abrasileirou” o chinês, o “mudou para o Rio”, e o envolveu com a bandidagem carioca. Enquanto isso, da capital paulista, anonimamente, quem desenhava para os estúdios da Disney era nosso competente e discreto desenhista Shinamoto.
JORNAL DOS ESPORTES
“O cor de rosa”. Assim era chamado o que foi o vibrante jornal do Mário Filho, “coqueluche” dos desportistas cariocas. Irmão mais velho do Nelson Rodrigues, foi ele o grande responsável pela construção do Estádio Mário Filho, que chamam de Maracanam. Para ele Zé Geraldo escreveu e ilustrou em quadrinhos a História do Box, desde a época da luta com os punhos nus no século XVIII, onde o pugilista inglês James Fig foi o grande campeão. Na mesma época o Zé também fez um gibi da história do jiu-jitsu no Brasil, contando de Carlos Gracie e sua fabulosa família.
Em 2008 Reila Gracie lançou um admirável livro sobre seu pai Carlos, patriarca criador de uma dinastia de grandes lutadores. Obra de vulto, que em qualquer país que preze seu patrimônio seria um “best-seller”. Entretanto, embora o Zé Geraldo tenha sido um dos mais de 100 entrevistados pela amiga Reila, numa história rica em acontecimentos extraordinários alguma coisa ficou de fora. Erroneamente, a modalidade de luta internacionalmente denominada jiu-jítsu brasileiro, que embasbacou japonês, e revolucionou o nível de competição em luta de ring, corretamente deveria se chamar jiu-jítsu Gracie do Brasil.
Foi na década de 50 que o Zé conheceu Carlos Gracie. Trabalhava no jornal Última Hora, quando o boxeador George Mehdi veio da França procurá-lo, e ele o encaminhou para a famosa academia Gracie. Quando Carlos e Hélio Gracie organizaram um grande espetáculo pugilístico em benefício dos flagelados da seca no Nordeste, o Zé e seu amigo Paulo Amaral – policial que foi instrutor da seleção brasileira de futebol – se inscreveram para enfrentar alunos dos Gracie. Mas no dia da inscrição dos lutadores na ABI o Paulo foi impedido de lutar pela sua corporação. O Carlos então argumentou que parte da imprensa transformara o evento numa guerra, e, como jornalista amigo, o Zé Geraldo também devia desistir. Mas ele argumentou que, sem motivo, ficaria mal abandonar um espetáculo beneficente. Mas o Carlos insistiu. Diante da imprensa e dos presentes, disse admirar a habilidade do Zé, e que, em vez de enfrentar um aluno da academia, em outra ocasião seu irmão Hélio lutaria com ele dentro das regras do Boxe. E assim foi. No dia seguinte lá estava o Zé na academia Gracie com fotógrafo e tudo. Confiando nos treinos que fizera com o pesado George Mehdi, o campioníssimo Hélio acabou atordoado por uma direita do Zé com luva de oito onças.
O rapazinho Carlson Gracie – que depois sucedeu o Hélio – assistiu a tudo fascinado. No dia seguinte Zé o levou para a academia de boxe do Armando Regazzi (vulgo Armandinho), que funcionava clandestinamente no fundo da sua casa da Rua Rainha Elizabeth, em Copacabana. O antigo pugilista treinava os lutadores do programa da TV RIO RING, e era o instrutor do “societ” carioca. Com sua noção de distância e habilidade, não foi preciso muito para que o então menino Carlson Gracie se tornasse um boxer tão eficiente quanto era imbatível no jiu-jítsu. 55 lutas invícto.
Foi histórica a luta onde Carlson Gracie vingou a derrota de seu tio Hélio - na época um professor já aposentado – que perdeu para seu jovem e aplicado aluno Waldemar Santana. Terminado o combate que durou quatro ronds, o antigo aluno da academia Gracie derrotado admitiu ter perdido a luta logo no primeiro. Declarou ter levado um calcanhar na cabeça, mas foi um direto de direita arrasador – cujo efeito na hora Carlson não percebeu. Nascia ali o vale-tudo moderno que o Rórion Gracie levou para Torrance, na Califórnia, e o Rickson Gracie para o Japão.
O grande campeão Hélio -pai de ambos - que alavancou a clã GRACIE pelo mundo.

Num momento em que as bancas de jornais estavam lotadas de quadrinhos importados de “super-heróis” americanos ostentando seu poderio bélico no Vietnam e mundo afora, o editor Illo Lund pediu que o Zé socorresse sua série de revistas em quadrinhos que contava a odisséia dos nossos pracinhas na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Ele sabia que podia contar com o amigo, mas foi uma luta árdua, que consumiu quase todo patrimônio da dupla. Tentaram de tudo. O Zé foi procurar Assis Chateaubriand em sua Casa Amarela em São Paulo com uma carta do ministro da guerra Henrique Lot, autorizando os remanescentes do Regimento Sampaio a participar de um evento na TV Tupi. Já conhecendo o jornalista, carinhosamente Chateaubriand perguntou pela sua mãozinha atrofiada, mas rasgou a carta do general e a botou na cesta de lixo. QUE MANCADA… Mas política é assim mesmo. No tempo em que ainda não havia recursos tecnológicos e os programas de TV eram ao vivo, foi na TV Excelcior, no antigo Cassino Atlântico, hoje Hotel Soffitel de Copacabana, que finalmente o Zé conseguiu fazer desfilar os remanescentes do Regimento Sampaio, com bandeira e tudo. Mas os quadrinhos dos pracinhas continuaram sobrando nas bancas, o exercito não adquiriu parte deles pra leitura sadia dos seus recrutas, e Coleção de Aventuras acabou.
MANCHETE
Ainda adolescente Zé Geraldo era vizinho dos Bloch na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, aonde foi colega da Dina e da Tâmara no Colégio Mallet Soares da Dona Estefânia. No início da década de 80 o bem apessoado colunista social “Jeff Thomas” – destacada figura do “societ” carioca – lembrou o Adolfo Bloch da ”competência” do Zé, e foi na sua residência em Teresópolis que o empresário lhe deu espaço para uma matéria semanal na revista Fatos e Fotos. A primeira teria sido a do cantor Agnaldo Timóteo, então deputado federal pelo PDT do Brizola, único do partido a se eleger pelo próprio prestígio. Mas o Zé teve que concluir às pressas a história do Índio Juruna, na época o assunto badalado. A foto da capa da revista seria dele, mas a inusitada morte do Garrincha a substituiu. O Zé ficou surpreso, quando sem ser consultado, anexaram em sua matéria uma introdução descabida. A tacharam de relato, e nela embutiram um BOX e uma parceira. Aquela foi sua primeira e última matéria em FATOS e FOTOS, aceita graças ao destaque do Juruna. Fato é, que devendo favores ao presidente Figueiredo – recebeu dele seis canais de TV de presente –, quando soube da estreita ligação do Zé com o Brizola, Adolfo o afastou da sua empresa.

“Tira” de uma série desenhada pelo Zé, quando tentou voltar à profissão. Mas o apoio que recebera do “renegado” BRIZOLA já havia liquidado com a CETPA, e um mercado editorial embutido na ditadura acabara com sua profissão de desenhista. Quando procurou seu amigo Bernardo Costa Campos, diretor do Jornal do Brasil com os “quadrinhos”, ele preferiu lhe arranjar trabalho no PONTO FRIO.
Apesar de ser reservista de terceira categoria, o Zé foi tachado de sargento e perseguido como militante na rebeldia dos sargentos. Custaram a identifica-lo como mero desenhista. Vinte anos depois dos anos de chumbo, no dia 10/09/84, uma matéria paga no jornal O globo insistia no equívoco: “Em princípio de outubro de 1983, (…)o deputado federal Leonel Brizola se reuniu com diversos sargentos em um apartamento no Leme, na residência do atual assessor do governador, sargento José Geraldo, das 12hs até às 14.00hs, sargento esse, que tinha, como característica, um defeito no dedo, bem como outros sargentos e ativistas civis como:JOSÉ SÁ ROIZ (Exército), ANTÔNIO MARQUES TOMÁS (Marinha), JOÃO FERREIRA SILVA (Aeronáutica) e os líderes JOSÉ SERRA (estudantil) – “hoje liderança do PSDB” -, ARUEIRA (do pacto de Unidade e Ação, PUA)Deputado Estadual BATISTINHA (ferroviário) e o conhecido Padre ALÍPIO DE FREITAS (Ligas camponesas)”. Apesar dos ataques dos beleguins da ditadura, ali estavam reunidos intelectuais, estudantes, sargentos e alguns seus superiores democratas, que procuravam uma maneira constitucional para evitar um golpe das elites civis e militares contra as reformas de base e o poder constituido – já tentado antes, e consumado meses depois.
Zé Geraldo deixa claro seu posicionamento político partidário: nenhum. Anarquista ao seu modo, bateu palmas quando ainda menino leu a afirmação do russo Bakunin: “que quem lhe desse uma ordem seria considerado inimigo“. Seu amigo Millôr Fernandes escreveu que, assim como ele, o Zé passava um cetissismo – recomendando jamais confundir com pessimismo. - No entanto, se otimismo é pra barriga cheia, quando em 1950, “bem acompanhado”, deixava um restaurante em Lisboa , preso como comunista pelos beleguins da ditadura de Salazar o Zé foi malhar os ossos na Cadeia do Aljube. Foi sua primeira experiência com grades.
No liberal governo João Goulart a prisão política do padre Alípio foi tida como única. Mas, no seu livro A Guerra dos Gibis, o jornalista Gonçalo Junior conta com detalhes mais duas inusitadas do Zé Geraldo, feitas pelo próprio presidente. Uma quarta experiência com grades foi com as do consulado do Uruguai e seu portão trancado, a quinta no quartel do Méyer, e a sexta na Fortaleza de São joão, no bairro da Urca. Antes de tentar se exilar no consulado Uruguaio no Rio de Janeiro, o Zé tinha ido homiziar-se no apartamento da irmã, na Praia do Leme - bairro sem saida – com os jornalistas Maia Neto (diretor da Rádio Mayrink Veiga) e Josué Guimarães (diretor na Agência Nacional do Jango). Foi uma babaquisse, mas o deputado Tenório Cavalcante e a turma do seu jornal Luta Democrática conseguiu de lá resgatar o Maia e o Josué. O Zé não confiou no “homem da metralhadora”. Preferiu se esconder num prédio ao lado, ”lugar seguro”, no apartamento do banqueiro do bicho vulgo ZEZITO, casado com uma amiga gaúcha. No entanto, escoltado pelo Tenório o Maia ainda conseguiu abrigo no consulado uruguaio, e o Josué se mandou para São Paulo. Confinado no “protegido” apartamento do “banqueiro”, o Zé soube que a polícia do exército invadira seu apartamento com truculência, revirando tudo e assustando suas crianças. Só não encontraram nada contra o dono da casa graças ao Reylson Gracie, que pegou toda papelada “comprometedora” do amigo e a enterrou na areia da praia da Barra da Tijuca.
Quando o Zé tentou se exilar no consulado do Uruguai, seu portão já não estava aberto pra foragido. Mesmo assim, com a ajuda do seu advogado José Levental e do líder trabalhista Batistinha, conseguiu botar pra dentro do prédio os 130 kilos do economista Paulo Shilling, que o lépido Batistinha acompanhou. Quando o Zé tentou segui-los, atiraram de dentro do consulado, apareceu a polícia, e ele só se safou graças à coragem e a habilidade do seu advogado José Levental que o conduziu de volta pelo arriscado trajeto que haviam feito.
Depois do tiroteio no portão do consulado o Zé perambulou pelo interior do Estado do Rio. Percorreu cidadezinhas como Trajano de Moraes e Santa Maria Madalena da Dercy Gonçalves“, lugar, onde tendo sua carreira na magistratura interrompida pela ditadura Vargas, seu pai Mário Dias havia sido promotor público. Seu filho foragido acabou parando na serra de Teresópolis. Se apaixonou pela Ângela, prima do amigo Ziraldo, rompeu o antigo casamento, e, temerariamente, a “arrastou” consigo numa tumultuada e acidentada viagem que quase acabou em tragédia. Alheia aos atos “subversívos” do companheiro, foi a bela Ângela e um Mustang importado que camuflavam o ”renegado”, até que em Porto Alegre o identificaram, e seu carro estacionado foi propositadamente abalroado por um “Camburão” da polícia. O casal estava na casa do Walter Freitas, figura importante, amigo insuspeito, mas só conseguiu cruzar a fronteira do Chui graças aos amigos Hamilton Chaves – ex-assessor do Brizola – e o compositor Lupicínio Rodrigues, que os “encaixaram” num ônibus lotado de ciclistas uruguaios que retornavam de São Paulo. Mas, aconteceu, que já em território uruguaio, o coletivo rolou ribanceira abaixo, houve mortes, e Zé e Ângela foram parar num hospital em Motevideo, onde ficaram de quarentema por 30 dias. Ele levava socorro para a sobrevivência dos companheiros Maia Neto e Paulo Schilling, mas Che Guevara acabara de ser morto, e sua intenção era encontrar Brizola na Praia de Atlântida. Ingenuamente achava que o líder gaúcho tinha condições de continuar a luta do argentino, e, quando se encontraram, falou sobre os companheiros do Araguaia. Mas, bem humorado, o “doutor Leonel” não quiz saber de guerrilha. Exaltou a beleza da Ângela e elogiou o bom gosto do Zé: - ”Tu te renovaste”. Apontou pra biblioteca, disse que estava estudando muito, e, sobre Guevara, declarou friamente: – “Não tenho vocação para mártir”. O casal pegou um ônibus de volta pro Brasil – novamente atravessou a fronteira do Chuí sem problemas – e voltou pra Teresópolis.
Perguntaram ao Zé Geraldo porque sendo amigo dos fundadores do Pasquim, nunca lá botou o pé. Ele respondeu que podia provocar risos, mas nunca foi humorista. Se valente fosse, e acreditasse que revolução marxista iria resolver o problema da ditadura militar e acabar com o capitalismo, terria ido se juntar aos companheiros no Araguaia. O Zé sempre admirou o alemão KARL Marx, mas nunca esqueceu uma “premonição” de seu adversário russo Bakunin. Três vezes o operário LULA se candidatou à presidente, mas, como sempre, o Zé votou em branco. Hay gobierno? Soy contra!
Custaram a identificar o Zé como mero reservista de terceira categoria. O tacharam de sargento, e o acusaram de militancia no movimento de rebeldia da “sargentada.” Vinte anos depois dos anos de chumbo, no dia 10/09/84, uma matéria paga no jornal O globo insistia no equívoco: “Em princípio de outubro de 1983, (…)o deputado federal Leonel Brizola se reuniu com diversos sargentos em um apartamento no Leme, na residência do atual assessor do governador, sargento José Geraldo, das 12hs até às 14.00hs, sargento esse, que tinha, como característica, um defeito no dedo, bem como outros sargentos e ativistas civis como:JOSÉ SÁ ROIZ (Exército), ANTÔNIO MARQUES TOMÁS (Marinha), JOÃO FERREIRA SILVA (Aeronáutica) e os líderes JOSÉ SERRA (estudantil) – “hoje liderança do PSDB” -, ARUEIRA (do pacto de Unidade e Ação, PUA)Deputado Estadual BATISTINHA (ferroviário) e o conhecido Padre ALÍPIO DE FREITAS (Ligas camponesas)”. Apesar dos ataques dos beleguins da ditadura, ali estavam reunidos intelectuais, estudantes, sargentos e alguns seus superiores democratas, que procuravam uma maneira constitucional para evitar um golpe das elites civis e militares contra as reformas de base e o poder constituido – já tentado antes, e consumado meses depois.
Trecho da matéria paga do jornal O Globo.
COMPADRIO
Enquanto gente chegada ao Zé Geraldo se exilava temendo a “contaminação” que o amigo representava, se esgueirando como pode ele voltou do Uruguai para se “enrustir” na serra de Teresópolis. Mas quando foi enquadrado pelo regime militar, valeu-se dos parentes: Tio marechal João Segadas Viana – que afinal intercedeu pelo sobrinho -, e do primo Humberto Barreto, então presidente da Caixa Econômica - “irmão siamês” do ditador presidente general Geysel. Contou também com duas figuras respeitadas junto ao regime militar. Roberto Taborda, coronel da reserva da aeronáutica, que gerenciando a loja da fábrica VIVENDA do Zé no Rio protegeu seu “anonimato” em Teresópolis. “Expert” em arte e decoração, Taborda pouco tinha de milico. Também o amigo CACÁ (Carlos Alberto Vieira), do Banco do Brasil, embora apolítico era ligado aos potentados do regime, e sempre o protegeu. O Zé aceitava as “regalias” encabulado. Embora não acreditasse em política de nenhum governo “constituido”, nem no despreendimento seja lá de que credo for, diante de Lamarca, Maringuela e Geraldão - que conheceu na sua Editora Americana, onde eram impressos tudo que era panfleto “subversivo” - se sentia acovardado, e, também omiço, diante da luta solitária da estilista internacional Zuzu Angel, que em busca do corpo do filho trucidado pelos beleguins da ditadura, lutou até ser morta num acidente forjado
Nem sempre o DOPS e órgãos de repressão dos anos de chumbo foram eficientes. Depois de ter o Zé Geraldo transitado pela fronteira uruguaia para visitar Brizola, o deputado Paulo Ribeiro, seu sócio na Editora Americana, aliviou sua barra: quando presidente de importante órgão de governo antes de 64, ele teve como funcionário um delegado de polícia – o Zé não lembra se o nome era Denizar ou Belizário – que enrustiu sua “fixa” no DOPS. Depois, quando interrogado no IPM do ISEB, queriam saber dos quadrinhos subversivos com a figura cafuza do Tiradentes na capa, mas sequer seu contato com Brizola em Atlântida foi questionado. No entanto, por causa de um seu bilhete encontrado com o amigo Lélio, presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool no governo JANGO, Zé Geraldo foi detido, espancado, e severamente interrogado. Mas até hoje não sabe o que tinha escrito no maldito bilhete.





















ADOREI a sua estória e fico muito orgulhosa de ser sua neta, você é único, um vô muito fora da mesmice, único.
Abraço
Fernandinha
Por: Fernanda Monteiro em 31 Dezembro, 2008
às 11:09
Fernandinha, beijos do vô. Continue meiga e bela.
Por: zegeraldo em 31 Dezembro, 2008
às 22:23
Prezado Zé, tudo bem?
Muito obrigado pelos comentários elogiosos e observações a respeito da Guerra dos Gibis. Pode me escrever e passar seus telefones? Gostaria de conversar contigo.
Grande abraço.
Por: Gonçalo Junior em 9 Janeiro, 2009
às 17:05
Competente colega Gonçalo. Não tenho seu endereço nem seu telefone.Meus telefones: 021-2275/4459 – Celular: 021-9604-5616. Nosso último contato foi a mais de 8 anos. QUE PENA… Desculpe rabugisses deste velho anarquista irrecuperável. Seu magnífico livro é um belo trabalho de um grande jornalista. Seu admirador, Zé Geraldo.
Por: zegeraldo em 9 Janeiro, 2009
às 17:36
OI ZÉ !
Maravilhosa a tua história,mas acho que está faltando referencias à um personagem que tu criou em 1942,o UIRASSÚ,um Tarzan indígena brasileiro que vivia aventuras na selva,e que foi publicado no GURI.
Eu estou procurando informações sobre o UIRASSU,pois não tem quase nada sobre ele na internet,queria saber quanto tempo foi publicado,e se tu tem imagens dele,pois não existe NENHUMA IMAGEM do Uirassu na internet.
Abraços,
LEONARDO
Por: Leonardo Albuquerque em 28 Março, 2009
às 18:14
Obrigado Leonardo.
Feliz por ter lido a meu respeito. Porém – como afirmo no blog – desde que me entendo sou um anarquista incorrigível, e não guardo nada. As imagens que viu em “apressado para nada”, com raras exceções, vieram da internet. Perdoe-me o amigo, mas sequer lembro do personagem UIRASSÚ.
Um abraço do Zé.
Por: zegeraldo em 29 Março, 2009
às 14:32