Capa da Cartilha
Em 1891, a Companhia Ferro Carril Jardim Botânico abriu um túnel na rocha – Túnel Velho – e estendeu seus trilhos até a praia. A facilidade do transporte atraiu toda uma população ávida das belezas da então remota praia de Copacabana. Seu chão passou a ser adquirido e a especulação imobiliária o foi progressivamente subdividindo e retalhando. Até o final do século XIX, o local permaneceu coberto de cajueiros, pitangueiras e maçarandubeiras. Antes era um vasto areal, conhecido pelos silvícolas como SACOPENOPÃ. Depois, povoado por rudes pescadores, recebia esporadicamente alguns devotos mais afoitos, que saindo da cidade, se aventuravam a uma árdua caminhada buscando a igrejinha de Copacabana, cujo nome – apesar da origem controvertida – permaneceu e virou legenda.
Naquela época o acesso à Copacabana era pela ladeira do Leme, Transpondo o velho forte – ali construído em 1778 pelo Marques de Lavradio – ou seguindo pela Vila Rica, outra garganta mais à oeste. Da cidade, a distância era grande e o local remoto. Atá quase o final do século XIX, os prédios do Rio de Janeiro eram assinalados com letras do alfabeto e a busca de um endereço era um verdadeiro flagelo. Em 1874, um decreto tornou obrigatório a fixação de placas de numeração. Instituída para ordenar o caos, seu principal objetivo era um levantamento rigoroso para identificar as casas de cômodos (cortiços) que não pagavam impostos e proliferavam de forma assustadora. Uma rigorosa sindicância se estendeu a todos os bairros e o cumprimento da nova lei se tornou obrigatório. Entretanto, Copacabana ficou de fora… Lá, o levantamento realizado só localizou 77 modestas edificações, e tão distanciadas uma das outras que a medida se apresentou inócua.
Em 1893, o logradouro hoje situado entre as ruas Hilário de Gouvea e Siqueira Campos recebeu o nome Malvino Reis, em deferência ao então diretor da Companhia Jardim Botânico. No entanto, logo no começo deste século, a homenagem foi transferida para Serzedelo Corrêa, empossado Prefeito em 24 de Julho de 1909, durante o governo Nilo Peçanha. Político eminente. General do Exército, ainda cadete ele participou ativamente do movimento republicano. For Ministro da Fazenda e professor da Escola Superior de Guerra. Uma curta gestão no comando da cidade – 27/07/1909 à 15/11/1910 – não foi obstáculo para que seu nome em 31 de Outubro de 1917, pelo decreto n° 1.165, fosse oficialmente homologado na praça.
No dia 8 de Abril de 1894, inaugurou-se o primeiro trecho do ramal da Igrejinha, entre as estações do Barroso e de Ipanema. As 3 da tarde, acompanhadas pela imprensa, acionistas e diretores da Jardim Botânico sairam do Largo do Machado num bonde especial, levando como convidados, autoridades da Prefeitura e do Banco do Brasil. O coletivo atravessou o Túnel Velho, rumo à primeira estação, localizada a margem da então Praça Malvino Reis. Prosseguindo pela Avenida Copacabana, o bonde especial parou na estação da escuma com a antiga Rua Ipanema – hoje Barão de Ipanema – e continuou até o fim da linha.
Depois de subir a pé o morro da Igrejinha e descortinar a magnífica paisagem, a comitiva se baldeou para um bondinho e seguiu até a Praia do Arpoador, rodando sobre trilhos portáteis, ali afixados na véspera. Mais tarda, retornando à praça, os convidados participaram de lauto jantar que comemorou a troca da iluminação a gás por eletricidade. A 21 de Agosto de 1894, a Companhia Ferro Carril assinou contrato com os empresários, Augusto Queiroz, José Ribeiro e Gaspar Cunha, autorizando-os instalar uma Feira Franca no local da praça. 0 compromisso os fez montar um teatrinho de marionetes, um circo de cavalinhos, barracas, e 3 coretos, onde aos domingos se apresentavam bandas de música num espetáculo que culminava sempte com grande queima de fogos de artifícios. Do lucro líquido mensal, obtido pelos concessionários, 30% era destinado á caixa beneficíente dos empregados da Ferro Carril. Findo o prazo de 6 meses da concessão, as benfeitorias construídas na praça, obrigatoriamente deveriam reverter ao Estado.
A antiga Avenida Copacabana, inicialmente se chamou PASMADO. Começava na Praia de Botafogo, e seguindo tortuoso traçado, dividia as terras da “Quinta de São Clemente” das do “Matias”, indo terminar na Praia de Copacabana. Finalmente, em 26 de Junho de 1937, pelo decreto nº 6.488, incorporou a Rua Conselheiro de Souza Ferreira e passou a se chamar NOSSA SENHORA DE COPACABANA.
A denominação COPA-CABANA – como por muito tempo se escreveu – substituiu o nome SACOPENOPÄ cuja origem remota veio de um enorme rochedo que os tamoios também chamaram de NHANGA. Situada em sua proximidade, a atual Rua Inhangá, certamente a ele deve seu nome. Hoje, quase despercebido, o mencionado rochedo se esconde debaixo de uma verdadeira “favela” de luxo. Seus prédios, acompanhando a Rua General Barbosa Lima, seguem serpenteando morro acima, desfrutando magnífico panorama do bairro.
Até a década de 30, os bondes que passavam pela Praça Serzedelo Corrêa, logo adiante mudavam de rumo, tangenciando pela Rua Inhangá rumo ao Túnel Novo. Abandonada naquele ponto, sem os bondes e sem calçamento, a Avenida Copacabana prosseguia atá o Leme. Nos dias de chuva, o trecho se transformava em verdadeiro lamaçal. Aos domingos, o Copacabana Palace oferecia gratuitamente elegante matinê de cinema. Antes da sessão, mães solícitas, apresentavam um espetáculo á parte no afã de limpar os sapatos das crianças. A noitinha, na praça Serzedelo Corrêa, a população se deleitava com um concorrido espetáculo de marionetes. Encenando num teatrinho especialmente construído para as crianças, infelizmente foi mais uma tradição destruída pelo tempo e pela insensibilidade. Ah!… as memórias da velha praça. Na esquina com Siqueira Campos, a Casa Carvalho, seus queijos, suas bebidas importadas. Em frente, o “velho bilhar do Valente”. Suas disputas de sinuca, vez por outra, acirravam os ânimos e acabavam em pancadaria. Um dia o espanhol Carlos Canseco — ex-campeão de peso-leve europeu – aqui exercendo anonimamente a profissão de corretor, a todos surpreendeu, quando com seu físico franzino enfrentou os pesados tacos de bilhar de seus antagonistas, a todos nocauteando. No centro da praça estava o tradicional Colégio Pitanga, responsável pela formação de eminentes personalidades da cidade. De seu pátio de esportes, podia-se sentir o cheiro de um estábulo localizado na Rua Barata Ribeiro que naqueles bons tempos ainda servia leite fresco ordenhado de suas vacas.
Na Avenida Copacabana, logo adiante, ficava o cinema Atlântico. Reformado na década de 40, mudou o nome para Ritz, e depois foi extinto. Antecedendo a época dos supermercados, também naquele trecho se encontrava a casa Gaio Marty. Mais para perto da praça, a saudosa Confeitaria Copacabana, com seus frangos deliciosos e sua decoração Belle-Époque onde se reunia a elite de Copacabana. Destacando-se de todo aquele contexto, a lembrança do inesquecível Padre Castelo, atuando sempre junto a comunidade, incansável na preservação dos valores e tradições do bairro que viu nascer.
Como disse Rui Barbosa: “Uma raça, cujo espírito não defende seu solo e seu idioma, entrega a alma ao estrangeiro antes de ser por ele absorvida”. No momento em que o modismo importado avassala nossas mais caras tradições, VANJA ORICO, desde menina empenhada em difundir nossa música pelos quatro cantos do mundo, com Zé Geraldo trouxe às praças do Rio um espetáculo com a Banda do Corpo de Bombeiros, Orquestra Sinfônica Brasileira, Ballet Maria Olenewa, teatro encenando a história do bairro, João do Vale, Zeketti, Xangô da Mangueira e o conjunto de samba Fundo de Quintal. Onde se apresentava Rio Boa Praça, Zé Geraldo distribuía de graça sua cartilha que contava a história do bairro. Foram elas que inspiraram o livro bilingue – português/inglês – que ele escreveu sobre a cidade com prefácios de Nélida Piñon, Augusto Silva Teles, Rachel Jardim e Vanja Orico, que por motivos políticos não foi editado para o evento ECO92, e, infelizmente, foi perdido na Editora Record.
Toda vez, que a mídia exibe à exaustiva repetição daquele chinês se exibindo na Praça Celestial, diante de um tanque de guerra em desfile – com seu canhão de tiro longo, inerte, coberto por capa –, lembro que 20 anos antes da tal fantochada a jovem atriz e cantora Vanja Orico, aqui no Brasil, de joelhos, lencinho branco na mão, enfrentou tiros de artilharia de carro de assalto da repressão e foi arrastada e espancada.
Embora o tempo e a memória as vezes apaguem da história personalidades e projetos importantes, acontece de alguns levantarem a poeira e recolocarem no merecido rol dos ilustres nomes esquecidos. É importante salientar, que Zé geraldo e Vanja Orico (com a qual foi casado) criaram o belo projeto Rio Boa Praça – durante o governo do prefeito Marcelo Alencar – e, com o apoio de FAMERJ, ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Fundação Roberto Marinho, RIOTUR, SENDAS, ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO RIO DE JANEIRO e PETROBRAS, percorreu todas as praças da cidade.
Vanja Orico, o repentísta Santa Helena, e o antigo bondinho puxado à burros que levaram os artístas do Largo da Carioca até o Largo das Neves em Santa Teresa.
Zé Geraldo no palanque de RIO BOA PRAÇA





