Publicado por: zegeraldo | 24 24UTC dezembro 24UTC 2008

A GUERRA DOS GIBIS – GONÇALO JUNIOR

Brilhante escritor e jornalista, Gonçalo Junior se revela um emérito pesquisador, de muito fôlego. O enfoque do seu livro justifica o belicoso título A GUERRA DOS GIBIS, que mostra sem rodeios os bastidores do que está por trás da inocente leitura dos “gibis” pela garotada. Desnudando as “forças ocultas” que deles tiram proveito, Gonçalo conta como Adolfo Aizen correu atrás do O Globo e da Pimenta de Mello, editora de O Malho e do Tico-Tico. Embora deles não tenha obtido apoio, foi com a ajuda do capitão João Alberto e Barros – então chefe de polícia de Vargas e editor do jornal A Nação, que Aizen se tornou o grande importador dos quadrinhos no Brasil.

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Quando no seu blog zegeraldo fala de quadrinhos, não  diz muito. Num mundo globalizado – quase falido – aonde em vez de algo palatável o  que alcança tiragens astronômicas são baboseiras, quem de fato se interessar pela importância sociológica e política que histórias em quadrinhos representaram no século que passou, tem que ler o livro A GUERRA DOS GIBIS de Gonçalo Júnior.  Zé o conheceu anos atrás quando por ele foi entrevistado para a GAZETA MERCANTIL de São Paulo. No entanto, no que lhe diz diretamente respeito em seu livro, cabe aqui alguns reparos. Gonçalo descreve a trajetória do Zé Geraldo desenhista com minúcias, mas ignorou o menino que publicou seu primeiro quadrinho no O Tico-Tico. Conta dele aos 15 anos, e fala da sua parceria com o poeta Lúcio Cardoso no lançamento do Guri, primeira revista em quadrinhos totalmente colorida. Cita o talentoso desenhista português Arcindo Madeira, cita Millôr Fernandes, mas esqueceu do Péricles, que, assim como o Millôr, também era um menino talentoso. Lá ele começou com os quadrinhos OLIVEIRA O TRAPALHÃO, para mais tarde, com o seu AMIGO DA ONÇA, ser um dos motivos da grande tiragem da famosa revista O CRUZEIRO, que chegou a ser editada em português e espanhol.

No seu livro Gonçalo vai fundo, esmiuçalha, faz uma verdadeira pesquisa arqueológica sobre o que foi a grande celeuma em torno dos quadrinhos importados. Fala da obstinação de Adolfo Aizen, que com eles enriqueceu, mas também da oportunidade que o editor deu aos desenhistas e argumentístas brasileiros. Mas foi muito mal informado quando trata dos acontecimentos que culminaram com a lei de redução progressiva dos quadrinhos importados no Brasil. Começa bem, contando como na década de 50 intelectuais, religiosos e políticos apertaram o cerco contra as “tiras” e as “revistinhas”, taxando-as como “um veneno para a infância”, e cita até a conceituada revista Tempos Modernos de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que as diagnosticou como “doença infecciosa”. Uma Gama de motivações ideológicas: à direita censurando moral e bons costumes, e a esquerda a propaganda do poderio bélico americano que os “super-heróis” representavam.

De fato, no Brasil, foi à assembléia gaúcha a primeira a aprovar um projeto para aumentar de 3 para 80% o imposto sobre circulação de histórias em quadrinhos. Mas o que Gonçalo Junior narrou a partir da década de 60 tem alguns equívocos. A lei que o deputado carioca Aarão Steinbruch conseguiu aprovar no congresso limitando a importação de “quadrinhos”, com cotas para os nacionais, nunca funcionou porque o presidente João Goulart não assinou a sanção que puniria seus infratores, e depois do golpe militar o Supremo Tribubal Federal deu ganho de causa aos empresários. (sic).

No A Guerra dos gibis Gonçalo Junior se Ocupa da ADESP (Associação dos desenhistas de São Paulo) e seu diretor Maurício de Souza, mas ignora a ADAGER do Rio de Janeiro, resultado de uma longa luta pelos quadrinhos nacionais, que começou com Angelo Agostini e prosseguiu no Tico-Tico. Aconteceu, que com Ziraldo, Jaguar, Borjalo, Flavio Colin, Fortuna, Getúlio Delfin, Ivan Rodrigues – e outros ainda pouco conhecidos – a ADAGER surgiu anos antes da co-irmã paulista, e o Zé Geraldo foi eleito seu presidente.  Gonçalo fala do contato de Jânio Quadros com Ziraldo na redação de O Cruzeiro, no Rio, antes da sua posse. Mas desconheceu o fato que, depois de eleito presidente do Brasil, Jânio mandou o professor Mário Pedrosa procurar o Zé, então presidente da ABD (Associação dos desenhistas do Brasil) para que com o apoio do MEC liderasse uma cooperativa de âmbito nacional para produzir nossos quadrinhos. Mas Jânio Quadros renunciou…

CETPA

O projeto de uma cooperativa nacional de artistas  foi por “água abaixo”. digitalizar000315Mas, depois da posse do JANGO, o então governador do Rio grande LEONEL BRIZOLA procurou o Zé no Rio propondo que largasse tudo que fazia,  para que ambos realizassem uma cooperativa no Sul. Foi assim que nasceu a CETPA (Cooperativa editora e de trabalho de Porto Alegre), que reuniu grandes desenhistas a argumentístas de todo canto, excetuando-se Ziraldo, Jaguar, e Maurício de Souza. Alavancando a luta dos colegas com o sucesso do seu Pererê, Ziraldo não tinha porque viajar, e, Carioca vacinado, Jaguar só deixaria o Rio arrastado. Quanto ao Maurício, conta Gonçalo Junior nas páginas 338 e 352 do seu livro A GUERRA DOS GIBIS, “que ele estava com o aluguel atrasado em oito meses quando o Zé o procurou em Mogi das Cruzes para equacionar seu problema e levá-lo para a CETPA em Porto Alegre”, mas ele lá nunca apareceu… Na ocasião, a esposa do Maurício guardava no ventre a filha  MÔNICA, nome da personagem hoje mundialmente conhecida. Há que reconhecer, que apesar da luta da ADAGER, da ADESP, da ABD e da CETPA, foi o talento do Ziraldo e do Maurício de Souza que projetaram internacionalmente os quadrinhos nacionais.

CETPA

CETPA

Por causa da reação do Zé Geraldo durante o programa BRASIL 61 da Bibi Ferreira na TV Excelsior, de São Paulo, que Gonçalo Junior o taxou de “tempestuoso e explosivo”. Ele se irritou quando ela anunciou um autêntico índio brasileiro para homenagear a luta nacionalista dos desenhistas, mas quem pisou o palco foi um índio fantasiado de “pele vermelha” americano. Coisas de produção alienada. Furioso, o Zé pegou o microfone e afirmou: – Ai está ao vivo, o resultado do aculturamento neste país!

No relato de Gonçalo Junior quanto à lei que regulamentou importação dos quadrinhos, há omissões. Assim como o Zé menino foi vizinho e amigo do Adolfo Aizen em Copacabana, mais tarde também o foi do Aarão Steinbruch do bairro do Leme. Foi ele que “encheu sua cabeça” com a estória dos quadrinhos, e a lei aprovada em Brasília pelo deputado nasceu na ADAGER com a chancela do Ziraldo advogado e a colaboração dos companheiros,  numa associação que funcionava precariamente no apartamento do seu “presidente”. Outro equívoco do Gonçalo foi fazer do Zé Geraldo correligionário do Brizola. Amigo chegado do político, desde a CETPA, admirava sua força e retidão de caráter, e, com Max da Costa santos, Dagoberto Rodrigues e Neiva Moreira, foi um dos que se empenharam pela eleição do Brizola como deputado federal e governador do Rio de janeiro. O fez por amizade, por gratidão, mas ganhou a pecha de “carregar a mala do Brizola“. No entanto, anarquista irrecuperável, nunca foi militante partidário.

Foi num momento de “necessidade” do  Zé Geraldo que o governador o nomeou diretor da antiga CODERT. Durante um almoço oferecido ao Ricardo Cravo Albin no Leme – onde o Zé residiu com a mãe – por ter ele transformado seu palacete na Urca em museu de arte,  que a Estela Marinho, amiga de infância do anfitrião, protestou contra Brizola:

- Como seu amigo o nomeia para uma diretoria burocrática e o deixa longe da luta pela cultura popular?

Quando alguém ousava tocar no assunto,  matreiramente o governador respondia: – Eu conheço o Zé Geraldo… Certamente se referia a um Zé radical, que insistia para que desse  um jeito no comércio da Barra da Tijuca, resmungando que carioca que não falasse inglês lá se ferrava.  SALE,  SHOW ROOM, POINT, DISIGNER, RECALL, e HALLOWEN, é o que lá se vê, esbravejava. Vão terminar substituindo saudade, palavra única, “copyright” do nosso idioma,  por HOME SIKNE, TO LONG FOR, ou seja lá por que for… Sempre de olho no Planalto, o maior susto do “doutor Leonel” foi quando sua biografia escrita e ilustrada pelo Zé quase foi parar nas livrarias. Ela destacava a veia revolucionária dos Brizola, contava de  um pai revolucionário – sumariamente executado depois da anistia entre Maragatos  e  federalistas – e estampava em sua capa  a emblemática foto do filho Leonel com metralhadora a tiracolo. No livro, o Zé contava da condição modesta dos Brizola, que no século XIX negociavam com muares, os levando de São Paulo para o Rio Grande do Sul. Darcy Ribeiro e Cibillis Viana, da assessoria mais chegada ao Governador, acharam a capa do livro uma provocação, que a divulgação do carater revolucionário dos Brilola seria um empecilho para a escalada do político rumo ao Planalto, e o livro não foi para o prelo.

A FOTO PROIBIDA

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Quadrinhos do texto do livro “censurado” por Brizolafamilia-brizola-trabalhava-com-muares1Os Brizola e o Caçula, e a lida com a Tropa de Muares.

digitalizar00051Menino guerreiro, e já rapazinho, jardineiro da pefeitura da cidade.

brizola-menino-e-cabineiro-de-elevador2Brizola menino, carregando cesta do açougue, e mais tarde, como cabideiro de elevador em Porto Alegue.

familia-brizola1Os Brizola construindo sua casa – Mãe de Leonel seguindo marido preso.

Embora querendo distância do poder político, antes da diretoria da CODERTE – ainda por conta da “penúria” -  Zé Geraldo tinha ido assessorar seu amigo Pereira Pinto, então secretário de agricultura do governo Brizola. Para atender promessa de campanha – leite para criança - fez um esboço de cartaz, mas a assessoria de imprensa do governo o “descartou” como coisa radical.

Esboço do cartaz rejeitado

No primeiro dia que o Brizola botou o pé no palácio Guanabara como Governador, o Zé Geraldo estava junto. Tomaram o café da manhã bem cedinho em Copacabana, o Gessy Sarmento pegou o Chevrolet, e, quando lá chegaram, o doutor Leonel botou pra correr uma gauchada que não largava sua cola, e já havia se “apossado” das mesas dos gabinetes palacianos. O governador sentou na sua mesa de trabalho, chamou o Zé, e foi  dando ordens que só um chefe de gabinete poderia executar. Sem querer bancar o Bakunin – que considerava inimigo quem lhe desse uma ordem – o Zé sentou num canto, escreveu um bilhete agradecendo, e se mandou… Fato é, que, na sua obstinação pelo Planalto, embora Brizola tenha deichado de lado toda aquela estória de apoiar a luta contra o aculturamento,  queria estar de olho no amigo “perigoso”.

Quando se lê no livro do insigne jornalista e escritor Gonçalo Junior:  – “recorrer à estratégia de condenar moralmente os Comics americanos” ou considerar “pregação ideológica” as estorinhas da CETPA, parece coisa de quem desconhece  o que representa invasão cultural. Mais um que deveria conhecer a máxima de Rui Barbosa: “Uma raça, cujo espírito não defende seu solo e seu idioma entrega a alma ao estrangeiro antes de ser por ele absorvida.

A questão nunca foi importação de cultura norte-americana em quadrinhos, mas “americanísmos” que poderiam liquidar com o sonho do Darcy ribeiro: “Vêr o Brasil se transformar numa cultura única, tropical, miscigenada e bela.

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CETPA – Brizola, Hamilton Chaves e Zé Geraldo na década de 60 (Porão da legalidade).

Sobre a ida do Zé Geraldo para Porto Alegre, na página 349 da A Guerra dos Gibis, um pequeno engano, que acima já foi esclarecido. No entanto, apesar de alguns equívocos, é de pasmar a precisão com que o Gonçalo repórter pesquisa e relata todas aquelas tumultuadas ocorrências do século que passou. Quando ele se refere especificamente a CETPA, é inacreditável a precisão como que conta minúcias sobre perseguição política e a tentativa de seqüestro da filha do Zé, Elizabeth. Fatos que adiante parece ignorar, quando atribui o ocaso da CETPA a xenofobia. Condena o regionalismo, mas esquece que foi o gaúcho  que adiou o golpe fascista  consumado em 64. Critica os Aba Larga, mas não se toca quando “nossos caipiras” vão pras TVs com chapelões de “cowboys”. Menciona revolução cubana de Fidel Castro? – e acusa de panfletários e doutrinários ingênuos personagens das revistinhas da cooperativa – afirmando também, que o discreto uniforme verde oliva do 1º Regimento de cavalaria gaúcha é cópia do espalhafatoso dólmã vermelho da Real polícia montada do Canadá. Ao cuidar dessas miudezas e menosprezar desenhista brasileiro, Gonçalo ignora o fato que o carioca Fernando Dias da Silva foi quem substituiu Alex Raymond, criador dos quadrinhos Flash Gordon, que Gutemberg Monteiro foi para Estados Unidos desenhar o Tom & Jerry,  e que o paulista Shinamoto, de São Paulo desenhava o Pato Donald para os estúdios da Disney. Sem tomar conhecimento do que esclarece o jornalista argentino Daniel Cassola em seu artigo “La historieta em Rio Grande do Sul” para a revista APLAUDIDA em 2001: “Este pequeno e faminto cangaceiro ZÉ CANDANGO criado por José Geraldo (Zé Geraldo) e puxado por Renato Canini,” (…) o nem sempre bem informado Gonçalo continua equivocado com a autoria do personagem. Apesar de reconheçer a obstinada atividade do gestor da cooperativa, incomoda sua insistência em atribuir Zé Candango ao desenhista Canini – criação e roteiro do Zé Geraldo – que só não fazia os desenhos por motivos óbvios já apontados pelo próprio Gonçalo.

Nas páginas 355 e 356 do seu A Guerra dos Gibis, quando se refere ao trabalho de alguns artistas cooperativados Gonçalo os Tacha de panfletários e subversivos, insinuando que personagens como Aba Larga e Zé Candango são agentes da revolução cubana no Brasil. (sic). Regionalismo para ele parece sacrilégio, e considera que  “Apenas” o Jornal do Brasil e a Última Hora compraram as tirinhas do “Zé Candango de Canini”. Como se na época não fossem eles dos mais prestigiados jornais cariocas. Depois de menosprezar os trabalhos do historiador João Cândido de Maia Neto, e dos argumentístas  Cavaleiro Lima e Hamilton Chaves, compara as estórias da revista Aba Larga com faroeste americano – quando foi dos anais da brigada militar gaúcha de fronteira – que vieram os subsídios para o enredo das revistinhas. Insinua subversão num movimento de resgate de brasilidade, e considera  subversívos pacatos desenhistas. Verdade é, que o nefasto golpe militar da década de 60 dividiu o país. Uns contra, outros a favor.

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Volta do exílio – Brizola com o Zé.

Quando na página 376 do seu livro Gonçalo diz que subversão foi o motivo político que parou o ingenuo Pererê do Ziraldo, esquece que o irreverente Pif  Paf do Millôr Fernandes foi  “excomungado” da revista O Cruzeiro. Porém, embora com os beleguins da repressão em seu encalço, com seu sócio Lúcio Abreu e o deputado Paulo Ribeiro, o Zé Geraldo ajudou  manter o Pif Paf vivo imprimindo seu tablóide na sua Editora Americana. Entretanto, em plena ditadura militar, ele não “vingou”. O Zé não se lembra se aconteceu pelo “humor” dos seus oito números,  ou foi por causa de uma capa que exibia a foto da  escultural vedete Mára Rúbia encimada pela comentada cabeça do então presidente Castelo Branco, com uma matilha de cães transvertidos em políticos mordendo-lhe as canelas. Na contracapa, uma paródia do piegas IF de Rudyard Kiplin, a moda Millôr. Se  o tablóide BUNDAS tentou ser seguimento do PASQUIM, aquele  novo Pif Paf certamente foi o seu precursor. Embora ainda não existisse o AI-5, foi por causa do jornal PANFLETO – ligado ao Brizola -, do Pif Paf do Millôr, e das cartilhas  de alfabetização do professor Paulo Freire CADERNOS DO POVO – tachados de subversivos pelo governador Lacerda – que,  contraditoriamente,  mandou ivadir a gráfica do Zé para apreende-las. Certamente ignorava que  parte de sua impressão fora realizada no seu próprio jornal Tribuna da Imprensa, na época dirigido  pelo Hélio Fernandes, irmão do Millôr, que socorreu o amigo Zé para complementar a grande tiragem encomendada. Tudo aconteceu no início da ditadura no país, mas os donos da gráfica e seus diretores “se ferraram”. O deputado do PTB Paulo Ribeiro foi cassado, o Lúcio Abreu se exilou no Chile, e depois de se esconder em tudo que foi canto e tentar em vão se exilar no consulado Uruguaio, o Zé foi parar no quartel do Méyer. Os diretores  da gráfica Alfredo Leal Santos e Jader – fichados como comunistas – foram parar no DOI-CODI. Quando preso no quartel Zé Geraldo assistiu o dígno editor Ênio da Silveira ser covardemente destratado,  acusado de comunista e homo sexual.  Porém, quando chegou sua vez,  teve que conter o riso. O oficial que o interrogou declarou solenemente ser aquela a revolução do FUSCA, porque patriotas como ele fundiam seu motor caçando comunistas.

Referindo-se ao Pif Paf do Millôr no jornal Estado de São Paulo, a jornalista Lilia Moritz Scharcz contou que “nem o general Castelo Branco – récem-impossado presidente de um regime linha dura – escapou de virar piada.”

Millôr e 2 capas do tablóide

Millôr e duas capas do Pif Paf

Também por causa do livro História de TIRADENTES – editada pela CETPA quando o Zé ainda era seu presidente –,  que ele respondeu ao temido IPM do ISEB. Motivo: o tipo morfológico do alferes estampado na capa  era pardo. Coisa de comunista. Voltando ao Gonçalo e sua A guerra dos Gibis, aquela velha estória do “morde e sopra”. Ele fala de um Zé Geraldo batalhador e magnânimo com os companheiros, entende quando contratou um ex-ministro do Perón exilado em porto Alegre, lembra até do Peugeot 404 que ele vendeu pra socorrer a CETPA. Destaca  também qualidades dos cooperativados, conta das andanças do Zé Brasil afora com índio, cavalo, e pelotão da brigada militar gaúcha, mas insiste em atribuir o fim da CETPA a xenofobia e plágio aos quadrinhos americanos, omitindo a concorrência desproporcional num mercado saturando de material importado a preço de banana. Não leva em conta ditadura militar, IPMs, “confisco” das máquinas que iriam imprimir as revistinhas nacionais, e a situação do Zé – no meio de toda aquela zorra – com a fama de “carregar a mala do Brizola”. O título A Guerra dos Gibis parece dar conta de um livro de somenos importância. Mas não será a visão estrábica que deformou o que de fato ocorreu com a cooperativa de Porto Alegre, e discordância quanto à revolução cubana de Fidel, que iria impedir o Zé de aplaudir trabalho tão importante. Entretanto, sem intenção de crítica, é lamentável constatar que no citado livro o nome Illo Lund – editor da série Coleção de Aventuras – importante para os quadrinhos nacionais, não aparece. Num mercado saturado de “supermans” americanos aprontando mundo afora, com o Lund o Zé  batalhou para contar em quadrinhos a atuação de nossos pracinhas na Itália. Não foi má qualidade dos desenhos ou do texto que limitaram a tiragem de Coleção de Aventuras. Controlado pelos poderosos dos meios de comunicação, um espaço saturado de quadrinhos importados impedia qualquer concorrência.


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Edição de Ilo Lund e Zé Geraldo sobre os pracinhas

O Pererê do Ziraldo e a Mônica do Maurício de Souza aconteceram como exceção, pelo talento de ambos, e a competência do contexto empresarial que soube adotá-los. Com o Péricles e seu Amigo da Onça aconteceu o mesmo. Aumentou fortuna do Chateauxbriand, enriqueceu o Aciole Neto, mas, ofuscado pelo personagem que sustentava a tiragem da badalada revista O Cruzeiro, ganhando mal, o desenhista entrou em depressão, bebia muito, e se matou. Na porta do modesto apartamento deixou um cartaz: NÃO RISQUE UM FÓSFORO, abriu o gás, e se foi…

Para saber mais do Zé, clique em Quem é Zé Geraldo Geraldo.

Publicado por: zegeraldo | 25 25UTC junho 25UTC 2008

Projeto Rio Boa Praça – 1982 – Cartilha

Rio Boa Praça

Rio Boa Praça

Capa da Cartilha

Em 1891, a Companhia Ferro Carril Jardim Botânico abriu um túnel na rocha – Túnel Velho – e estendeu seus trilhos até a praia. A facilidade do transporte atraiu toda uma população ávida das belezas da então remota praia de Copacabana. Seu chão passou a ser adquirido e a especulação imobiliária o foi progressivamente subdividindo e retalhando. Até o final do século XIX, o local permaneceu coberto de cajueiros, pitangueiras e maçarandubeiras. Antes era um vasto areal, conhecido pelos silvícolas como SACOPENOPÃ. Depois, povoado por rudes pescadores, recebia esporadicamente alguns devotos mais afoitos, que saindo da cidade, se aventuravam a uma árdua caminhada buscando a igrejinha de Copacabana, cujo nome – apesar da origem controvertida – permaneceu e virou legenda.

Naquela época o acesso à Copacabana era pela ladeira do Leme, Transpondo o velho forte – ali construído em 1778 pelo Marques de Lavradio – ou seguindo pela Vila Rica, outra garganta mais à oeste. Da cidade, a distância era grande e o local remoto. Atá quase o final do século XIX, os prédios do Rio de Janeiro eram assinalados com letras do alfabeto e a busca de um endereço era um verdadeiro flagelo. Em 1874, um decreto tornou obrigatório a fixação de placas de numeração. Instituída para ordenar o caos, seu principal objetivo era um levantamento rigoroso para identificar as casas de cômodos (cortiços) que não pagavam impostos e proliferavam de forma assustadora. Uma rigorosa sindicância se estendeu a todos os bairros e o cumprimento da nova lei se tornou obrigatório. Entretanto, Copacabana ficou de fora… Lá, o levantamento realizado só localizou 77 modestas edificações, e tão distanciadas uma das outras que a medida se apresentou inócua.

Em 1893, o logradouro hoje situado entre as ruas Hilário de Gouvea e Siqueira Campos recebeu o nome Malvino Reis, em deferência ao então diretor da Companhia Jardim Botânico. No entanto, logo no começo deste século, a homenagem foi transferida para Serzedelo Corrêa, empossado Prefeito em 24 de Julho de 1909, durante o governo Nilo Peçanha. Político eminente. General do Exército, ainda cadete ele participou ativamente do movimento republicano. For Ministro da Fazenda e professor da Escola Superior de Guerra. Uma curta gestão no comando da cidade – 27/07/1909 à 15/11/1910 – não foi obstáculo para que seu nome em 31 de Outubro de 1917, pelo decreto n° 1.165, fosse oficialmente homologado na praça.

No dia 8 de Abril de 1894, inaugurou-se o primeiro trecho do ramal da Igrejinha, entre as estações do Barroso e de Ipanema. As 3 da tarde, acompanhadas pela imprensa, acionistas e diretores da Jardim Botânico sairam do Largo do Machado num bonde especial, levando como convidados, autoridades da Prefeitura e do Banco do Brasil. O coletivo atravessou o Túnel Velho, rumo à primeira estação, localizada a margem da então Praça Malvino Reis. Prosseguindo pela Avenida Copacabana, o bonde especial parou na estação da escuma com a antiga Rua Ipanema – hoje Barão de Ipanema – e continuou até o fim da linha.

Depois de subir a pé o morro da Igrejinha e descortinar a magnífica paisagem, a comitiva se baldeou para um bondinho e seguiu até a Praia do Arpoador, rodando sobre trilhos portáteis, ali afixados na véspera. Mais tarda, retornando à praça, os convidados participaram de lauto jantar que comemorou a troca da iluminação a gás por eletricidade. A 21 de Agosto de 1894, a Companhia Ferro Carril assinou contrato com os empresários, Augusto Queiroz, José Ribeiro e Gaspar Cunha, autorizando-os instalar uma Feira Franca no local da praça. 0 compromisso os fez montar um teatrinho de marionetes, um circo de cavalinhos, barracas, e 3 coretos, onde aos domingos se apresentavam bandas de música num espetáculo que culminava sempte com grande queima de fogos de artifícios. Do lucro líquido mensal, obtido pelos concessionários, 30% era destinado á caixa beneficíente dos empregados da Ferro Carril. Findo o prazo de 6 meses da concessão, as benfeitorias construídas na praça, obrigatoriamente deveriam reverter ao Estado.

A antiga Avenida Copacabana, inicialmente se chamou PASMADO. Começava na Praia de Botafogo, e seguindo tortuoso traçado, dividia as terras da “Quinta de São Clemente” das do “Matias”, indo terminar na Praia de Copacabana. Finalmente, em 26 de Junho de 1937, pelo decreto nº 6.488, incorporou a Rua Conselheiro de Souza Ferreira e passou a se chamar NOSSA SENHORA DE COPACABANA.

A denominação COPA-CABANA – como por muito tempo se escreveu – substituiu o nome SACOPENOPÄ cuja origem remota veio de um enorme rochedo que os tamoios também chamaram de NHANGA. Situada em sua proximidade, a atual Rua Inhangá, certamente a ele deve seu nome. Hoje, quase despercebido, o mencionado rochedo se esconde debaixo de uma verdadeira “favela” de luxo. Seus prédios, acompanhando a Rua General Barbosa Lima, seguem serpenteando morro acima, desfrutando magnífico panorama do bairro.

Até a década de 30, os bondes que passavam pela Praça Serzedelo Corrêa, logo adiante mudavam de rumo, tangenciando pela Rua Inhangá rumo ao Túnel Novo. Abandonada naquele ponto, sem os bondes e sem calçamento, a Avenida Copacabana prosseguia atá o Leme. Nos dias de chuva, o trecho se transformava em verdadeiro lamaçal. Aos domingos, o Copacabana Palace oferecia gratuitamente elegante matinê de cinema. Antes da sessão, mães solícitas, apresentavam um espetáculo á parte no afã de limpar os sapatos das crianças. A noitinha, na praça Serzedelo Corrêa, a população se deleitava com um concorrido espetáculo de marionetes. Encenando num teatrinho especialmente construído para as crianças, infelizmente foi mais uma tradição destruída pelo tempo e pela insensibilidade. Ah!… as memórias da velha praça. Na esquina com Siqueira Campos, a Casa Carvalho, seus queijos, suas bebidas importadas. Em frente, o “velho bilhar do Valente”. Suas disputas de sinuca, vez por outra, acirravam os ânimos e acabavam em pancadaria. Um dia o espanhol Carlos Canseco — ex-campeão de peso-leve europeu – aqui exercendo anonimamente a profissão de corretor, a todos surpreendeu, quando com seu físico franzino enfrentou os pesados tacos de bilhar de seus antagonistas, a todos nocauteando. No centro da praça estava o tradicional Colégio Pitanga, responsável pela formação de eminentes personalidades da cidade. De seu pátio de esportes, podia-se sentir o cheiro de um estábulo localizado na Rua Barata Ribeiro que naqueles bons tempos ainda servia leite fresco ordenhado de suas vacas.

Na Avenida Copacabana, logo adiante, ficava o cinema Atlântico. Reformado na década de 40, mudou o nome para Ritz, e depois foi extinto. Antecedendo a época dos supermercados, também naquele trecho se encontrava a casa Gaio Marty. Mais para perto da praça, a saudosa Confeitaria Copacabana, com seus frangos deliciosos e sua decoração Belle-Époque onde se reunia a elite de Copacabana. Destacando-se de todo aquele contexto, a lembrança do inesquecível Padre Castelo, atuando sempre junto a comunidade, incansável na preservação dos valores e tradições do bairro que viu nascer.

Como disse Rui Barbosa: “Uma raça, cujo espírito não defende seu solo e seu idioma, entrega a alma ao estrangeiro antes de ser por ele absorvida”. No momento em que o modismo importado avassala nossas mais caras tradições, VANJA ORICO, desde menina empenhada em difundir nossa música pelos quatro cantos do mundo, com Zé Geraldo trouxe às praças do Rio um espetáculo com a Banda do Corpo de Bombeiros, Orquestra Sinfônica Brasileira, Ballet Maria Olenewa, teatro encenando a história do bairro, João do Vale, Zeketti, Xangô da Mangueira e o conjunto de samba Fundo de Quintal. Onde se apresentava  Rio Boa Praça, Zé Geraldo distribuía de graça sua cartilha que contava a história do bairro. Foram elas que inspiraram o livro bilingue – português/inglês – que ele escreveu sobre a cidade com prefácios de Nélida Piñon, Augusto Silva Teles, Rachel Jardim e Vanja Orico, que por motivos políticos não foi editado para o evento ECO92, e, infelizmente, foi perdido na Editora Record.

Vanja Orico e Zé Geraldo em 1981

Vanja Orico e Zé Geraldo em 1981

Toda vez, que a mídia exibe à exaustiva repetição daquele chinês se exibindo na Praça Celestial, diante de um tanque de guerra em desfile – com seu canhão de tiro longo, inerte,  coberto por capa –, lembro que 20 anos antes da tal fantochada a jovem atriz e cantora Vanja Orico, aqui no Brasil, de joelhos, lencinho branco na mão, enfrentou  tiros de artilharia de carro de assalto da repressão e foi arrastada e espancada.

Embora o tempo e a memória as vezes apaguem da história personalidades e projetos importantes, acontece de alguns levantarem a poeira e recolocarem no merecido rol dos ilustres nomes esquecidos. É importante salientar, que Zé geraldo e Vanja Orico (com a qual foi casado) criaram o belo projeto Rio Boa Praça – durante o governo do prefeito Marcelo Alencar – e, com o apoio de FAMERJ, ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Fundação Roberto Marinho, RIOTUR, SENDAS, ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO RIO DE JANEIRO e PETROBRAS, percorreu todas as praças da cidade.vanja-orico-rio-boa-praca-bonde2 

Vanja Orico,  o repentísta Santa Helena, e o antigo bondinho puxado à burros que levaram os artístas do Largo da Carioca até o Largo das Neves em Santa Teresa.

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Zé Geraldo no palanque de RIO BOA PRAÇA

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Convite de Rio Boa Praça

Convite de Rio Boa Praça

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